Capítulo 2 – A Estranha
Ele saíra afoito do consultório médico, sequer cumprimentou a secretaria que ao notar olhou para ele com desdém, mesmo que no fundo ele sequer tenha percebido a olhadela, passou batido por todos e só parou brevemente para por seus óculos escuros, arrumar novamente o boné, como se fosse um de seus cacoetes. Postou-se a andar dentre a multidão que se perdia na rua, em pleno horário de rush, estava ele confiante, como a muito não ficava, enchia o peito de ar, respirando fundo, como se finalmente tivesse tido uma boa notícia em sua vida de dissabores.
Enquanto andava um tanto que distraído, afinal sua mente se perdia em meio às lembranças da conversa que tivera com sua doutora sendo abocanhado por divagações, e da curiosidade que despertava em sua mente fértil, sobre o tal médium, sofrera uma forte trombada em seu braço, o que o fizera quase cair com o baque recebido, olhou para trás, e virá uma aparente jovem andar apressada sem alterar o ritmo da passagem, sequer havia se importado e o menosprezara, fato que o incomodara profundamente.
- Olha por onde anda, tem educação não... – Gritou em tom enfurecido, enquanto que segurava o braço com a outra mão, sentira certo ardor pelo tranco recebido.
A moça parara de súbito por alguns segundos, virando-se lentamente para ele, o fitando friamente sem qualquer expressão em seu rosto, o que de certa forma o espantou, mas de forma alguma ele se importava ou temeria alguma reação contra ele, ainda mais vindo de uma pequena jovem, como ele certamente a classificava, afinal tinha ela quase a metade do seu tamanho.
Ela o fitou, enquanto inclinou o rosto lentamente para o lado, sua pele branca e belos olhos verdes se destacavam no meio daquelas pessoas.
- Ta olhando o que? – Exclamou de súbito ele, enquanto ela se aproximara rapidamente, o assustando um pouco desta forma, que dera um passo levemente para trás, afinal aquela garota era sem dúvida estranha.
- O que está fazendo? – Questionou, ao vê-la próximo a ele, mais do que ele realmente queria, ocupando o seu próprio espaço, se sentiu invadido e pressionado.
- Você... Você me vê?
Ele bufou e caiu na gargalhada, chamando a atenção dos que estavam próximos a ele, enquanto que o fitavam, olhares julgadores e cheios de questionamentos, com certeza, ali ele fora taxado de louco por alguns.
- Nossa... Pelo visto não sou o único por aqui a precisar de consulta psicológica... Cada maluco que há nessa cidade! – Exclamou ele, virando-se e andando, ignorando-a, não tinha certeza se ela era doida, ou zombava da cara dele, em ambas as hipóteses, preferia simplesmente ir embora, e foi o que fizera.
- Espere... Espere, por favor.
Ignorando o chamado um tanto que desesperado, e sendo rude, retirou os fones de ouvido do bolso, estes ligado em seu celular, os pôs no ouvido e apertou no aparelho para que começasse a tocar uma de suas músicas favoritas. Se tornando apenas mais um dentre a multidão que se entorpece e se esconde da realidade, em suas vidas egoístas e sozinhas, a passos largos, andando e andando, não deixando que nada alheio a ele o interferisse.
Enquanto andava perdido em sua mente, apesar de sentir uma fumigação incômoda em seu braço, apenas seguindo o ritmo da canção que ouvia, ao atravessar a faixa em um dos cruzamentos, surpreendeu-se com um carro que vinha desgovernado contra sua direção apesar do sinal estar fechado, capotando algumas vezes em altíssima velocidade, mal teve tempo de se mexer e foi bruscamente acertado, sendo arremessado bruscamente contra a parede de uma das lojas. Sentiu seu corpo esmigalhar-se, e a mente sair de seu corpo.
Estava ele jogado no chão, suas vistas rodopiavam por aquele cenário caótico, e em meio às visões que tinha, focou-se em um ponto longe, e virá aquela jovem moça de antes, o focando, sorrindo alegremente. Foi à última imagem que ele tivera antes de ficar inconsciente.
Afastem-se, afastem-se...
Ouvia o som vago e distante de uma sirene, assim como o burburinho incômodo próximo a ele, não distinguia o que falavam, mas sabia que era sobre ele. Sentia o sangue borbulhar de seu corpo, assim como se esvair, da mesma forma que o abafado do clima seco, ficando ainda pior, pela quantidade de gente próxima a ele.
Saiam da frente... Cervical, vamos imobilizar, e levar para ambulância, rápido! – Ordenou um dos paramédicos.
Sentia seu corpo ser puxado, fixado, arrastado, e até mesmo sacolejado já dentro da ambulância, aquele som forte das sirenes, de eventuais buzinadas, e algumas freadas bruscas, o irritavam.
Estamos perdendo ele...
A escuridão crescia dentro de seu ser, e cada vez ouvia-se menos, já não mais sentia o andar do corpo, sequer ouvia algum barulho, nem mesmo aquela sirene intermitente, que por muito se fixava em sua mente como um som claro.
- Afastem-se, carregar! – Gritou uma das socorristas, enquanto untava o desfibrilador com um gel.
Sentiu um leve formigar nas pontas do dedo, e um curto flash brilhar, em meio aquela escuridão que tomava seu ser.
- De novo... Carregar...
Novamente aquele flash, contudo mais fraco, e distancia, sentia um vazio o tomar, e se entregava por fim aquela sensação apaziguadora, talvez a morte não fosse algo tão ruim, sua vida não era mesmo das melhores, sem amigos, sem namorada, distante da família, o que realmente o prendia naquele mundo? Nada pensava ele, mesmo que entorpecido e perdido em sua própria mente.
- Mais uma vez...
- Pare... Já é tarde... O perdemos... – Balbuciou outro, enquanto segurava os ombros da paramédica.
Mas... Ele é tão novo...
Fizemos o que podíamos... Registre à hora da morte!
Não havia mais nada, apenas uma negritude como uma pedra de silício, sua mente era rasgada e parecia que seu corpo seguiria o mesmo destino, mas ouvira uma voz, uma doce voz, um olhar esverdeado surgiu em meio aquela escuridão, e logo viu uma feição feminina, reconhecera-a, era aquela jovem que o encarara, que o tocara e que por fim sorrira, sentiu um forte calor tomar seu corpo, o ar mesmo que turvo invadir seu ser, e mesmo que fracamente, seu coração voltou a bater.
- É impossível... Ele tem sinal vital...
- Mas já passou doze minutos... Não pode...
- Oxigênio... Rápido, vamos levá-lo a sala de cirurgia...
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